“O Fórum Social Mundial (FSM) é um evento de âmbito mundial, organizado por movimentos sociais com objetivo de celebrar a diversidade, discutir temas relevantes e buscar alternativas que julgam adequadas para questões sociais.”
Por ironia do destino é lá que moro, de modo que não tive que me esforçar muito para participar do evento. Inscrevi-me no Acampamento da Juventude e passei a maior parte do meu tempo no Fórum. A partir disso, tive as seguintes impressões:
I. O FSM superou e muito as expectativas que foram criadas sobre ele, uma vez que a cidade não tinha infra-estrutura alguma para realizar o evento.
II. Ainda assim, o evento teve suas deficiências, principalmente quanto à preparação dos voluntários responsáveis por ajudar os participantes a se localizarem na grande extensão territorial do evento:
a. 40% mostraram incerteza ao me dar uma informação;
b. 70% me deram informações erradas (o que me fez perder muito tempo);
c. Houve um voluntário que reencontrei algumas vezes durante o fórum, e ele não tirava o celular do ouvido, todo feliz gastando seus créditos promocionais pra matar o tédio, e eu: tensa por estar perdida (de novo).
III. O FSM tem o propósito de discutir temas relevantes. “Temas relevantes” é algo muito abrangente. O que é relevante pra mim pode não ser para você, assim sendo, do meu ponto de vista, para cada atividade interessante haviam mais de quarenta atividades que considero completamente irrelevantes.
O FSM também propõe buscar alternativas para questões sociais, e nesse ponto observei algo interessante. Enquanto cobramos uma lista de propostas uniformizadas no fim do FSM (o que não recebemos, claro), o que acontece no evento são acordos internos entre grupos específicos propostos durante suas atividades no fórum. Ao menos foi isso que aconteceu na atividade Cooperação Internacional – Solidariedade Norte e Sul, proposta pela UNISOL Brasil (cujo site se encontra fora do ar). Fiquei feliz quando um dos participantes disse que o desenvolvimento do Norte e do Nordeste deve ser prioridade para cada brasileiro.
Também participei da atividade Visiones de Integración: IIRSA (Iniciativa para a Integração da Infraestrutura Regional Sulamericana) y UNASUR (União das Nações Sul-Americanas), proposta pelo Bank Information Center. Todavia, ao chegar atrasada na atividade (por culpa das orientações enganosas dos voluntários), vi que a atividade tratava da visão indígena sobre o tema. Eu esperava uma discussão entre acadêmicos renomados com uma invejável bagagem intelectual, mas a realidade se mostrou, de maneira peculiar, ainda mais interessante. Presenciei as declarações dos índios colombianos, equatorianos, chilenos, peruanos e bolivianos.
Colombianos: Disseram que a IIRSA favorece o capitalismo. Que há uma falta de abertura para as opiniões do povo, e que o povo não é consultado e por isso as pessoas a são impedidas de exercer atividades para sua subsistência (pesca, caça, colheita...). Eles disseram que o bom convício entre os povos indígenas e os brancos beneficiará a todos, mas que se deve considerar que os povos indígenas têm condições diferentes das dos brancos, são filosofias de vida diferentes. Sem mais delongas, disseram que o projeto trará conseqüências ruins para os povos indígenas.
Equatorianos: Disseram que os projetos vão destruir a biodiversidade e os povos indígenas e que a implementação de certas políticas públicas faz com que os índios digam Não! Disseram também que, por experiência, perceberam que o desenvolvimento do capitalismo não significa o desenvolvimento da saúde, da educação, etc. Crêem que o desenvolvimento é importante sim, mas com vida.
Chilenos: Disseram que sua economia está nas mãos das multinacionais/transnacionais que exploram suas terras sem considerar os impactos ambientais. Terminaram o discurso com a frase: Outro mundo é possível, mas se não defendermos nossa mãe terra (pachamama), nenhum mundo é possível.
Bolivianos: mencionaram a livre determinação dos povos, e disseram que o IIRSA é um modelo a mais do imperialismo e um passo a mais para destruir os povos indígenas.
Peruanos: Disseram que são contra todas as atividades que possam prejudicar a vida dos povos indígenas. Um senhor do grupo tomou a palavra. Citou os dois princípios básicos da filosofia indígena: o coletivismo e o amor à natureza. Disse também que o que pregam não é o socialismo, pois eles são assim há milhares de anos antes do nascimento de Marx. Ele disse que antes da chegada do capitalismo à América Latina, eram as pessoas que pertenciam à terra, e não a terra que pertencia às pessoas. Sobre o aquecimento global, ele disse que isso não é um problema pessoal, e sim um problema com o sistema.
Então se preparem: dia 12 de outubro será o dia da mobilização mundial pela vida.
Outro evento importante foi o lançamento do Portal ODM, que serve como um “monitor” dos objetivos do milênio no Brasil. O evento contou com a presença do simpaticíssimo Minar Pimple, oficial do programa dos ODMs na Ásia/África e diretor do programa Stand Up! Speak Out! (Vídeo no Youtube).
O Que Estou Lendo?
A Alma do Homem Sob o Socialismo, de Oscar Wilde.
Terminei de ler agora.
Apesar de concordar com 70% de suas idéias, discordo de 80% de suas conclusões.

